• Chris Day

A fotografia como representação do real ou dos desejos da luz

"Aux pays fréquentés sont les plus grands silences"

Saint-John Perse


por Weydson Barros Leal*


Foi Oscar Wilde quem escreveu que “homem algum morre pelo que sabe que é verdade. Os homens morrem pelo que desejam que fosse verdade, por aquilo que algum terror em seus corações lhes diz que não é.” Creio que essa frase se aplica muito bem ao ofício do fotógrafo e ilumina a angústia do artista na compreensão do tempo e da verdade. A nenhum outro homem a transitoriedade da imagem estará mais latente do que para aquele que viaja. O viajante, parado na estação ou dentro do mesmo trem que corta o país em velocidade, vê o inesperado pontuar o seu caminho. Também nisto reside o acaso: na sorte do grande fotógrafo. Como se esta sorte fizesse parte de seu arsenal de talentos, de sua bagagem de luzes, e fosse a parte invisível de sua melhor companhia. É numa viagem que se encontra o imprevisto, o nunca antes imaginado, o destino improvável ao qual até um erro ou um atraso nos conduz para uma descoberta inesquecível. Em busca dessa poesia, a fotógrafa brasileira Chris Day atravessou o continente europeu para registrar, com seu olho e sua arte, o que o acaso só nos conta uma vez. Em seu percurso, os destinos foram cidades como Praga, Atenas, Paris, Istambul, ou lugares e cidades menores da Escócia, da Espanha, da Itália, da Alemanha, da Áustria, à maneira de uma Salzburg muito pessoal, quase particular, como devem ser as cidades para um fotógrafo. Em sua particularidade de visão, através de ângulos que nos traduzem também o movimento anímico da própria artista, descobrimos que tanto quanto os ermos dos parques e paisagens frias da Escócia, também cidades como Praga e Paris podem nos revelar redutos de silêncio e solidão. E aqui chegamos ao centro de uma estética que parece buscar na metrópole a poética lírica de uma melancolia interior, ou daquela soledad tão cara à poesia espanhola, mas que se estende a todos os lugares, a todos os matizes de luzes e silêncios que só a pintura e a fotografia sabem desvendar. Podemos, por isso, afirmar que aqui se alcança uma estética da solidão.



De metrópoles como Londres e Paris, de onde se esperam imagens de multidões feéricas entre carros e ônibus apressados, têm-se o vazio dos parques, o silêncio das ruas ou o espaço que faz do grande monumento um poema pessoal. Vista a partir da Place du Trocadéro, a Torre Eiffel, por exemplo, é observada por uma das esculturas masculinas que decoram o antigo palácio. Um tronco nu, reconhecido de costas por suas linhas clássicas, cria nesta composição um dos poucos momentos em que uma cidade também é a sua possibilidade erótica. Essas fotografias de Chris Day respondem perfeitamente ao verso de Saint-John Perse usado aqui como epígrafe. É o poeta quem nos diz que nos países mais frequentados estão os maiores silêncios. Para captar este silêncio que corrói a multidão e, na sua ausência, sobrevive nos bancos frios das aleias nos fins de tarde, a artista utiliza recursos que aproximam sua fotografia de uma tela impressionista, em que a luz, dissipada na granulação difusa de sua superfície, cria uma atmosfera de distâncias e temperaturas que são metáforas de uma solidão habitada. Mesmo nos lugares de onde a artista nos traz apenas uma ou duas impressões, permanece o silêncio como seu tema preferido. O mesmo silêncio que habita a estrada e os telhados de Cardona, na Itália, e que parece guardar uma população que pouco ou nada tem a fazer fora de casa. Neste sentido, seja na catedral de Florença ou num castelo em Fussen, na Alemanha, é sempre a visão do silêncio o que compõe e ilumina a poética dessas fotografias. Caminhar sozinho por Paris, Londres, Praga, Istambul, ou mesmo viver numa dessas cidades – carregadas, em nosso imaginário estrangeiro, por uma visão idílica de fausto e festa –, possibilita ao observador atento outro tipo de experiência: estar imune às tintas e disfarces dos cartões-postais. Paris pode ser a “cidade luz” na visão poética dos casais apaixonados, mas a dureza e a velocidade de uma metrópole sempre imersa no fervor cotidiano emprestam à sua geografia afetiva algo que, ainda que poesia, é solidão iluminada. Paris também é o seu vazio, a sua distância, a saudade de algo que não sabemos o quê, ou quem, ou onde...


Mas movamos o nosso olhar para outro lado do mundo. Turquia. Cidade de Istambul. Até os viajantes que nunca estiveram em Istambul guardam o secreto desejo de conhecê-la, de visitar seus mercados e mesquitas, de celebrar o seu corpo por dentro. Istambul é como um livro bonito que guarda belas páginas da história da humanidade. A mistura de etnias que enriquece suas ruas faz da antiga Bizâncio (depois Constantinopla) um caldeirão de vida. Sob as lentes de Chris Day, a efervescência dessa cidade, que tem metade do seu território no ocidente e metade no oriente, é resumida ao detalhe, ao istmo que, como uma palavra, também resume a convivência de suas religiões.


Fotografar também é aceitar a colaboração inesperada do olho da câmera. Afinal, nem sempre uma fotografia é exatamente o que a vontade do fotógrafo pretendeu contar. A câmera é um coadjuvante imprevisível, enriquecedor, passível de controle só até o limite em que a luz decide interferir, inundar, surpreender, imprimindo à obra a insuspeitada participação do acaso. Aquele mesmo acaso que um dia chamamos de sorte. No entanto, quando um fotógrafo nos dá como resultado de seu trabalho uma sucessão de acertos que ultrapassa as probabilidades dessa sorte, chamamos isto de talento. Este é o caso de Chris Day. Uma fotógrafa cuja câmera é só a companhia para quem ela primeiro conta as suas descobertas.


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